terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Apresentação


Geovane, Carlos, Carlos Alexandre... Antes de nascer eu já tinha sido tudo isso, mas graças ao bom gosto de minha velha mãe, sou Alexandre, este que vos fala agora. Meu nome é Alexandre, mas qualquer pessoa em minha casa ou que tenha certo tempo de convívio comigo, me chama de Léo, meu apelido desde criança. Não me perguntem o que Alexandre e Léo têm de semelhante, o que sei de minha mãe é que eu repetia esse nome, e o mesmo terminou ficando. Tentarei expor esse portfólio de uma forma bem humorada, pois é dessa forma que tento ver a vida, apesar de ter ciência de seu lado “não tão feliz”, sendo eu bastante eufêmico na expressão, me permitam. Sou o filho mais velho da dona Sandra Regina e do seu Geovane, e irmão de Amanda e Aline (nota-se a preferência de minha mãe pelos nomes iniciados pela mesma letra). Além deles, convivo também com os filhos de Amanda, meus sobrinhos João Pedro, de quatro anos, e Juliana, de dois (nota-se também que a prática de colocar nomes de filhos iniciados com a mesma letra atravessou gerações, rs). Sou estudante de Psicologia, e este trabalho faz parte do meu processo de graduação. Escolher cursar Psicologia não foi algo imediato, pelo contrário. Tentei ser arquiteto, geógrafo, tentei até ganhar a vida trabalhando em callcenters, mas algumas vivências me fizeram perceber que eu precisava estudar sobre tudo aquilo que acontecia a mim e aos outros, os processos, as motivações, as relações... Foi mais ou menos com esse pensamento que decidi ser então psicólogo, e mesmo não sabendo ainda em que diabos de área vou me inserir, rs, tenho certeza que está na Psicologia o caminho que desejo trilhar. Mas falemos agora do projeto em si. Este portfólio conterá a descrição de quatro marcos de minha infância, e como falei anteriormente, tentarei expô-los da forma mais bem humorada possível. Rio de tudo, acreditem. E rio de muita besteira, assim como gosto de muita besteira também. Aliás, gosto de muita coisa boa, mas que muitos acham besteira, digamos. Se me conhecesse, Mr. Erikson diria até que não deixei a adolescência, em alguns aspectos. Eu concordaria e o chamaria pra umas partidas de vídeo game lá em casa, hehehe.
Falemos agora dos marcos escolhidos. Minha proposta é de falar um pouco deles e relacionar às teorias da Psicologia do Desenvolvimento, no intuito de ilustrar meu próprio desenvolvimento tendo as teorias como suporte. “Os marcos que escolhi foram: “Esqueceram de Mim”, Pânico no Parque”, “Inimigo Oculto” e “Romeu tem que morrer”. Calma, não sou nenhum crítico de cinema, e não farei sinopse de filme algum, calma! Esses são apenas títulos simbólicos dos marcos que irei expor. “Esqueceram de mim” fala de quando fui esquecido no táxi por meu pai, enquanto este ia a um mercado trocar o dinheiro da corrida para o taxista, que reclamando da demora do meu velho, decide ir embora. Detalharei mais sobre esse marco à frente. Ele foi um dos mais interessantes, pois foi uma das minhas principais memórias, mesmo sendo bem novo na época. “Pânico no Parque” fala de quando me perdi de minha mãe no Parque da Cidade, no bairro do Itaigara, caso que rio até hoje quando minha mãe me conta com detalhes o terror que ela passou a me procurar naquela imensidão de mato existente no parque. Achei esse marco interessante para ser exposto, pois me lembro do meu sofrimento tentando encontrá-la, confundindo-a com outras pessoas e quase saindo do parque sem vê-la. “Inimigo Oculto” fala da primeira vez que desobedeci a uma regra previamente estabelecida por meus pais na minha segunda infância, onde fui ao fliperama após a escola (o que era terminantemente proibido) e um de meus vizinhos, que por incrível que pareça NÃO SEI QUEM É, ATÉ HOJE, me dedurou para meus pais. Escolhi este, justamente porque me perturba até hoje o fato de não saber quem me dedurou, rs. E por fim, “Romeu tem que morrer” fala do episódio traumático de bullying sofrido na 5ª série do primário. Como mencionei anteriormente, todos esses marcos tiveram grande importância no meu desenvolvimento, seja cognitivo, seja social, nas correspondentes etapas da minha infância (sei que devem estar pensando que eu só tive momento ruim na minha infância, hehe, mas não é isso. Apenas pensei em expor momentos que rio feito besta ao recordar e contar pras pessoas hoje).
         Por fim, falo do meio que escolhi para transmitir minhas idéias, o blog. Escolhi esse método por estar familiarizado com o meio, por já ter criado blogs anteriormente e por gostar de escrever em meios menos formais, pois penso que me dão maior liberdade de expor da forma que realmente quero. Assim, espero que fique legal.

Algumas considerações sobre a infância




     Antes de seguir para os marcos, achei pertinente falar sobre a infância e os períodos em que ela se divide, já que os momentos descritos neste portfólio obedecerão esse tipo de organização. A infância, assim como as outras etapas do desenvolvimento, é uma construção social e cultural, que passa por diversas metamorfoses em cada época, sofrendo influência das tendências e das dinâmicas da sociedade em seu presente contexto. Há o período inicial, de zero a dois anos, a primeira infância, dos dois aos seis anos, e a segunda infância, que vai dos seis aos doze anos, embora estes valores não sejam fixos em todas as teorias. Antes do século XV, as crianças não tinham espaço ou representação. Áries (1981) descreve a época como se não houvesse lugar para a infância nesse mundo, sendo que até o fim do século XVIII as crianças eram retratadas como adultos em miniatura. No século XX e no atual, percebemos como o período que chamamos de infância possui características e dinâmicas completamente diferentes daquelas dos séculos 19 e anteriores, e pode-se ir ainda além, pois se pode falar em diferentes infâncias não colocando o fator temporal como critério, mas também o geográfico, o espacial. Podemos falar em diferentes tipos de infância atualmente a depender dos diferentes contextos hoje existentes no globo, das diferentes culturas, das diversas influências religiosas e políticas. 

Marcos de minha infância, parte 1 - “Esqueceram de mim”


         Bem, o primeiro de meus quatro marcos, e como falei no tópico de apresentação, um dos que mais tenho lembrança, mesmo tendo sido bem novinho. O título do marco faz alusão ao filme do Macauly Culkin com justiça, observem bem. Tinha eu cinco anos, e estava com meu pai, em um bar no bairro da Liberdade, onde eu morava. Lembro-me bem, do meu velho ter comprado um refrigerante para mim, e de estarmos dividindo um tira-gosto que ele havia comprado antes (dividindo nada, eu comia era tudo, pois meu pai só queria saber das cervejas, azar o dele). Passamos quase a tarde toda naquele bar, eu entupido de refrigerante, e meu pai mais grogue do que barata depois do inseticida. Até que, decidimos finalmente sair do bar e meu velho havia me perguntado se eu queria algo naquele momento, alguma coisa pra brincar. Pedi um dominó a ele. Abro um comentário rápido nesse momento, para falar que mais à frente na minha adolescência eu passei a aproveitar esses momentos de bebedeira do meu pai, onde ele ficava super susceptível a qualquer pedido meu, hehe. Pegamos então um taxi e fomos para o bairro do IAPI, relativamente próximo de onde estávamos. Após chegarmos ao destino, meu pai desceu do carro e foi em direção a um mercado do outro lado da rua, no intuito de trocar o dinheiro que havia na mão para pagar a corrida ao taxista. Esperamos ele voltar, para que eu pudesse descer e seguirmos para comprar o dominó. E esperamos, esperamos, esperamos... O taxista olhava o relógio e tinha mais de meia hora já decorrida, sem meu pai voltar, até que o mesmo volta-se até mim e pergunta:
- Você mora por aqui mesmo? Sabe o caminho de casa?
- Sei sim. Disse eu, ainda esperando meu pai, mas sem desesperar. Posso dizer que, se essa situação tivesse ocorrido alguns anos antes, minha reação poderia ser bastante diferente. Cole & Cole (2004, cap 10) falam que a criança na primeira infância, dos dois aos seis anos, utiliza de estratégias para controlar suas emoções. Neste meu caso, o que me veio à mente foi que meu pai me achava grandinho o suficiente pra voltar pra casa sozinho, pois ele não queria ir pra casa agora. Não me assustei com a situação de ter meu pai longe há muito tempo, nem por conversar com um estranho, no caso, o taxista. Ele guiava o carro seguindo minhas orientações, onde eu tentava orientar sua direção para ir direto à minha casa. “Vira aqui, segue direto, vira de novo, pára aqui na frente da casa de portão preto”, foram as orientações que dei ao motorista. Cheguei em casa e tive um problema: não havia ninguém lá. O taxista, já impaciente, me perguntou o que faria comigo, e eu respondi categoricamente, na desenvoltura dos meus cinco (!!) anos de idade, rs. “Vou pra casa de minha avó, aqui do lado”. Cole & Cole (2004, cap 10) falam sobre a competência socioemocional, sendo esta a habilidade para se comportar em adequadamente em situações sociais que evoquem grandes emoções. Penso que naquela idade, e frente às circunstâncias do evento, eu tinha uma competência socioemocional bastante considerável, visto que em nenhum momento me desesperei – diferente do taxista mamão que não sabia o que fazer comigo. Só faltou eu dirigir no lugar dele. Neste momento de minha vida eu tinha já certo desenvolvimento de minha personalidade e de minha  capacidade de socialização. Cole & Cole (2004) define socialização como o processo no qual as crianças adquirem os padrões, valores e conhecimento da sociedade, enquanto personalidade é definida pelo padrão singular de temperamento, emoções, interesses e habilidades intelectuais em que a criança se desenvolve. Não desesperei, nem no momento em que meu pai saiu do carro para trocar o dinheiro, nem quando o taxista decidiu me levar para casa sozinho.
         Indo para casa de meus avós, o taxista explicou toda a  situação, e ficaram surpresos pelo fato de eu não ter chorado em momento ruins. Minutos de depois, quem aparece? Meu pai, quase afogando nas próprias lágrimas, gritando pra minha avó que havia me perdido, sem saber ele que eu havia conseguido voltar pra casa sozinho. Acho que serviu bem de lição pro velho “bebum”, que certamente passou a pensar duas vezes antes de me deixar sozinho e desamparado na escola! Até hoje meus pais também lembram com bastante lucidez sobre esse momento, falando que desde pequeno eu “não era mole”. E não era mesmo. Ao final do episódio, com meu pai ainda chorando, fiz uma pergunta bastante pertinente àquela altura: “Cadê meu dominó?” Hehehehe. 

Marcos de minha infância, parte 2 - "Pânico no Parque"

        
        Eita, esse também foi um episódio traumático – para meus pais – logicamente, rs. Se bem que, em comparação ao episódio onde fui esquecido dentro do taxi, neste eu realmente sofri um pouco. Só um pouquinho, juro. Falo isso porque a pessoa que estava comigo era diferente, e com ela as coisas eram bem mais próximas, como são até hoje: minha velha mãe. Bem, canceriano legítimo como eu, de início de decanato (bah, eu faço Psicologia e gosto de astrologia sim, deixem de ser caretas, heheh), infantil que só, sempre fui muito próximo de minha mãe. Num domingo de sol, fomos levados, eu e minha irmã Amanda (Aline não havia nascido na época), para dar um passeio no Parque da Cidade. Após algumas horas caminhando e brincando no local sob a supervisão de minha mãe, Amanda sente vontade de ir ao banheiro. No momento que estava reunindo informações para incluir neste portfólio, minha mãe me falou que havia me avisado que se afastaria até o banheiro químico, pedindo para eu aguarda-la, mas sinceramente não me recordo dessa orientação. Continuei a andar, e como estava de mãos dadas com ela, peguei a mão mais próxima e segui em frente. Só alguns minutos depois, olhei para o lado e o que vi me assustou: aquela não era a minha mãe! Putz, iai? Entrei nos dois labirintos que existem no parque (um em formato tradicional e outro no formado de castelo), saí pelo outro lado, não vi minha mãe de novo, e aí os pensamentos ruins começaram a aparecer, embora eu não estivesse chorando em momento algum. Mesmo com minha mãe ausente, eu permaneci quieto, não chamei atenção e não me comportei de forma incorreta (bem, tirando o fato de me separar dela, heh), pelo contrário. Observando bem, ao sair do labirinto eu estava bem próximo à saída, e lá permaneci, até que um policial veio falar comigo e perguntou o que eu estava fazendo sozinho ali naquele lugar tão grande. Nesse momento, trago o conceito de autocontrole, de Kopp e Wyver (1994 apud Cole & Cole, 2004), que consiste no aprendizado sobre o que deve ou não ser feito, com a capacidade de agir conforme a expectativa de seus cuidadores, mesmo na sua ausência. Mesmo não sendo totalmente consciente, eu achava que ficar quietinho, não andar demais sozinho no parque e principalmente, não sair dele era o que minha mãe esperava que eu fizesse, ou na pior das hipóteses, minha mãe não esperava que eu fizesse o contrário, heh.


Seguindo o caso, ao achar o policial e responder suas perguntas, comecei a caminhar do seu lado, e de alguma forma me sentia seguro dessa maneira, até que encontramos minha mãe, desesperada, logo à frente, depois de alguns minutos andando. Minha mãe descreveu bem o momento, afirmando que fui correndo em sua direção, chorando, enquanto a mesma, também aos prantos, profetizava um monte de castigos quando eu chegasse em casa. Vai entender gente grande, que mostra que gosta, mas fala em castigo, rs. Nesse momento em que vi minha mãe e senti-me bastante feliz  e aliviado, faço menção às teorias do apego. Bowby (1984) afirma que o comportamento de apego consiste em uma resposta desencadeada pela necessidade de sobrevivência da espécie e se estabelece a partir do contato entre mãe e bebê, em torno do sentido de proximidade e segurança. Ainsworth (1969) também contribui de forma muito importante no aprofundamento das teorias do apego, estabelecendo categorias de relacionamento mãe-bebê. O que trarei é aquele que, ao meu ver, e parece ser o que foi mais condizente com minhas experiências, que é o apego seguro. Neste tipo de apego, segundo a própria Ainsworth, a relação mãe-bebê é bastante positiva e de grande confiança. Mesmo que haja uma pessoa substituta para o apego em determinado momento, a preferência pela mãe é notória. Balanço final do passeio no parque: roupa suja, brinquedos quebrados, mãe estressada e mais uma peripécia realizada!

Marcos de minha infância, parte 3 - "Inimigo Oculto"

       
          Esse marco me intriga até hoje, digno de qualquer filme de espionagem de elite. “Inimigo Oculto” é um filme de espionagem, e que sua proposta encaixa diretamente no que foi essa minha vivência, ocorrida na minha segunda infância, mais precisamente aos onze anos de idade. Meus pais me deram uma educação que não foi nada autoritária, mas também nada negligente, sendo mais coerente afirmar que meu desenvolvimento foi voltado a um estilo parental com padrão de maternidade e paternidade com autoridade, que segundo Cole & Cole (2004, cap 11), consiste num estilo parental onde os pais demonstram que têm mais conhecimentos e habilidades, detêm controle de mais recursos e inclusive tenham mais força física que seus filhos, mas admitem que as crianças também tenham seus direitos. São pais que tem menor probabilidade de utilizar de punição, em relação aos pais autoritários, que buscam controlar seus filhos explicando as regras e enfatizando a obediência de forma a mostrá-la como uma virtude. Em suma, minha criação foi, na medida do possível, equilibrada no sentido de ter uma educação moral sem exageros punitivos. Havia regras e seu descumprimento, a depender da gravidade, tinha como conseqüência desde um rápido diálogo até a velha palmatória. Conto agora o caso. Estava eu na 5ª série do primário, na época chamada de ginásio. Este período representava algo novo em minha vida, pois começava a vivenciar de forma mais intensa a influencia do grupo de pares e as sensações das paixões (platônicas, principalmente) pelas meninas mais bonitas da turma. Meus amigos de sala volta e meia após as aulas do dia me chamavam para ir ao fliperama que ficava localizado no mesmo bairro onde ficava a escola, mas eu categoricamente recusava a oferta, dando desculpas ligadas a atividades da escola ou de casa, e etc. Mas a insistência foi ficando intensa, além do fato de eu ser um apaixonado por games, e essas duas coisas juntas “não deram o que preste”, rs. Cedi a pressão dos caras e fui finalmente no fliperama com eles, após a aula. Era realmente muito bom fazê-lo, passávamos horas após a escola jogando e conversando, lá mesmo no fliper. Era uma vivência que eu não tinha em casa, nem no bairro onde morava. Piaget (1932/1965 apud Cole & Cole 2004) chamou esse tipo de vivência de moralidade autônoma, falando que quando as crianças entram na segunda infância começam cada vez mais a interagir com seus pares fora de situações diretamente controladas pelos adultos. Porém, contudo, todavia, entretanto, alegria de pobre dura pouco... Em um desses dias super comuns, e que por incrível que pareça eu não tinha ido ao fliperama, recebo uma ligação do meu pai, quando chego à casa de meus avós:
 - Tô sabendo que você tá indo pro videogame depois da aula. Já me passaram a informação, você tava sendo vigiado. Quando eu chegar, vai cair na porrada!
 - Mas pai, espera! Eu não estava em jogo nenhum, quem te disse isso? Perguntei.
 - Não interessa quem me disse você não precisa saber. Só saiba que o couro vai comer quando eu chegar. E desligou o telefone.
        Bem, não preciso dizer que minha cara naquele momento estava mais pálida que a do gasparzinho com anemia. Tentei utilizar uma de minhas estratégias anti-bronca, que era dormir antes de meus pais chegarem pra escapar do momento de raiva, mas não adiantou dessa vez. Fui “acordado”, e tome sermão, com direito a ameaça com cinto na mão. Ouvi, ouvi, até que chegou um momento em que questionei, falando que eles prestavam mais atenção no vizinho peru do que no meu desempenho escolar, que não havia sido em nada alterado com a minha nova atividade. Claro, compreendo que não seria nada saudável transformar essas idas ao fliperama em uma rotina, mas não era nada nessa ordem. Esse momento de questionamento das regras estabelecidas por meus pais também é contemplado pela teoria da moralidade autônoma de Piaget, que descreve a aquisição de uma nova forma de pensamento moral que passa a compreender determinadas regras como arbitrárias e que podem ser desafiadas e até mudadas.










No final das contas, meu pai não me bateu, mas a ameaça “doeu” pela ansiedade de todo o dia de espera pela sua chegada. E até hoje, ATÉ HOJE, NÃO SEI QUEM FOI O VIZINHO PERU QUE ME DENUNCIOU! Perguntei a meu pai a alguns poucos anos atrás, mas ele afirmou não se recordar. Preferi acreditar, pra não correr risco de criar algum tipo de “antipatia retardada” pela pessoa, rs. Mas que foi coisa de espião, com certeza foi!

Marcos de minha infância, parte 4 - "Romeu tem que morrer"

      

         Neste último marco, trago a vivência do bullying sofrido também no mesmo ano da espionagem do fliperama. O marco tem esse nome como título, pois assim como no filme, onde o protagonista é perseguido por um monte de caras querendo arrebentá-lo, mais ou menos aconteceu comigo também. Sei que chego nesse último marco só falando teoricamente de coisas ruins que aconteceram comigo, mas como já falei, fiquem tranqüilos. Muita coisa de boa já me aconteceu também, e nisto estão incluídos os aprendizados obtidos nessas vivências expostas até aqui.
Pois bem, falemos deste último. Minha nova escola na 5ª série trouxe um monte de mudanças vindas da vivência dos grupos de pares. Contudo, esta escola sofria influência de outros fatores, e um deles era relacionada à presença de muitos garotos dos bairros vizinhos em suas imediações, e alguns desses caras tinham disposição muito grande pra arranjar problema. Eu não tinha muita prática em lidar com pessoas com esse tipo de personalidade. Como anteriormente só havia estudado em colégios particulares, a 5ª série no colégio público trouxe uma série de mudanças e readaptações, e uma delas foi a de defasagem dos conteúdos da escola. Tudo era muito mais fácil do que na escola anterior, o que refletia então nas minhas notas. As notas altas somadas a minha timidez fez com que pensassem de mim como alguém que buscasse superioridade em sala, o que era um tremendo equívoco. Os dias foram passando, fui fazendo amigos, mas a mesma galera da sala, que me olhava de forma diferente no início do ano, continuava se comportando diferente dos demais comigo, até que um dia eles me abordaram, me pedindo dinheiro (R$0,10 era dinheiro na época), me pedindo, ridicularizando frente aos meus amigos, até que houve um dia em que eu não suportei tal pressão, xinguei os caras de nomes que até o Cão se espantaria, joguei pedras, tudo pra além de não dar o dinheiro, intimidá-los. Contudo, foi inútil. Corri por todo o bairro, entrei em loja, saí em loja, mercado, padaria... Até que finalmente me vi livre dos caras e relaxei, coisa de cinco minutos. Estava a esperar meu ônibus, torcendo para ele passar logo, e passou. Mas... como sorte de mulambo dura pouco, assim que saí da loja pra pegar o ônibus, fui cercado pelos caras!
 - Olha ele aqui, achei ele. Xinga agora, otário! Pega o dinheiro dele, véio!
 - Não, caras. Eu não tenho dinheiro (tinha sim). Mal aê pelos xingamentos.
        Não houve desculpa que coubesse naquela hora. Fui perseguido por mais de 1h por todo o bairro, me escondi dentro de uma loja de utilidades, mas foi descoberto pelos caras e além de perder meu dinheiro, apanhei feito “mala velha”. Tinha desabafado anteriormente, mas em seguida estava pagando o preço da minha revolta. Hartup (1974 apud Cole & Cole 2004) fala sobre a existência de duas formas de agressão, sendo uma voltada a uma agressão estrutural, que é dirigida à obtenção de algo, como ameaçar e ferir no intuito de tomar algo de alguém, e a agressão hostil, chamada normalmente de bullying, que visa uma dominação moral da pessoa que sofre, com o objetivo de obter vantagens prolongadas com essa dominação. Sofri um pouco das duas, pois levaram meu dinheiro, mas principalmente houve a tentativa de estabelecer uma dominação permanente, que só teve fim com a presença de pais na escola e da polícia nos seus arredores. Apanhei muito naquele dia, mas ganhei o respeito de meus amigos, que também eram amedrontados pelos caras frequentemente. Acho que foram episódios como esses que contribuíram para que eu desenvolvesse mais empatia pelos outros. Importar-me com a causa do outro, além da minha. Segundo Hoffman(1975 apud Cole & Cole 2004), uma criança pode sentir empatia por outra em qualquer idade, no entanto, à medida que desenvolvem-se, sua capacidade de empatia aumenta e ela se tornam capazes de interpretar e reagir mais adequadamente às emoções dos outros.

Referências

Cole, M. & Cole, S. R. 2004. O desenvolvimento social na primeira infância. Em: –, O desenvolvimento da criança e do adolescente. Cap. 10. Porto Alegre: ArtMed. p. 274-304.

Cole, M. & Cole, S. R. 2004. Os contextos de desenvolvimento na primeira infância. Em:-- , O desenvolvimento da criança e do adolescente. Cap. 11. Porto Alegre: ArtMed. p. 439-484.

Bowlby, J., 1984.a, Apego - Apego e Perda, - vol. 1 da trilogia Apego e Perda, São 
Paulo, Ed., Martins Fontes.  

Ainsworth, M.D.S. 1974, "The Development of Infant-Mother attachment", Reviews of Child Development, Chicago , University of Chicago Press.

ARIÉS, P. 1981. História social da criança e da família. Trad. Dora Flaksman. 2.ed. Rio de
Janeiro: Livros Técnicos e Científicos.

Rocha, R.C.L. 2002. História da infância: reflexões acerca de algumas concepções correntes. UNICENTRO, Paraná.

Síntese sobre meu aprendizado na disciplina "Psicologia do Desenvolvimento da Criança"


         Meu aprendizado na disciplina foi bastante satisfatório. Já havia tido contato com algumas teorias básicas ligadas a Piaget e Vygostky, pois antes de entrar para o curso de Psicologia, tive aula de uma disciplina chamada “Fundamentos Psicológicos da Educação”, quando ainda era aluno de Geografia. Tive acesso superficialmente à abordagem de Piaget e os estágios de desenvolvimento, a Vygotsky e sua abordagem sócio-histórica, além de um apanhado que resumia a Psicologia do Desenvolvimento, mas completamente voltada à educação. Desta forma, eu tinha idéia de como algumas teorias falavam sobre o desenvolvimento humano, mesmo superficialmente. Comparado a hoje, posso dizer que o conhecimento que tive acesso há alguns anos atrás está bem melhor fundamentado. Aprendi muito mais detalhadamente sobre a abordagem de Piaget, mesmo eu tendo maior preferência à abordagem sócio-histórica e a cultural. Piaget teve grande importância pois suas teorias foram pioneiras para diversas aplicações práticas. Além de Piaget, conheci também de forma mais detalhada as idéias de Vygotsky, e por consequencia, de Valsiner. Ambos são teóricos que gosto bastante de estudar, devido a uma aproximação maior com o meio social, com o contexto, com a cultura (não que Piaget desconsidere todos esses fatores). Conheci também as teorias de Erikson, teórico que conheci através desta disciplina especificamente. Sua abordagem de influencia psicanalítica é bastante interessante, principalmente no que tange os conflitos que cada fase do desenvolvimento enfrenta, devido às transformações de ordem psicossocial no indivíduo.
         Por fim, após cursar a disciplina, aprendi ainda mais sobre as dinâmicas do desenvolvimento humano. O indivíduo se desenvolve influenciado por suas características biológicas, sua história de vida, suas vivências e o seu ambiente, e todos esses fatores agem no corpo deste indivíduo de forma bastante complexa, que não pode ser completamente dissociada uma da outra. Existirão culturas onde o desenvolvimento humano ocorrerá de uma forma específica em comparação à outra. As diferenças culturais inclusive irão trazer diferentes concepções dos estágios do desenvolvimento. Por exemplo, a infância em um país desenvolvido terá uma conjuntura completamente diferente da infância de um país assolado pela pobreza, onde os índices de mortalidade infantil são extremos. A infância de um país de influência religiosa mais liberal/democrática será diferente da infância de um país onde as leis da religião restringem ou regem o comportamento dos indivíduos desde o seu nascimento. Cheguei sabendo bem pouco sobre o desenvolvimento humano, principalmente com uma idéia de teorias generalistas sobre o processo em si, mas saí com uma concepção bastante diferente. Hoje, encaro o desenvolvimento humano como um processo de multi-dimensões, onde todas as variáveis, sejam genéticas, sociais ou culturais, têm sua importância e sua influência em toda a complexa conjuntura que este carrega.

Auto Avaliação

        

     Meu aproveitamento na disciplina também foi satisfatório, a meu ver. O semestre teve alguns problemas, que somados a alguns problemas de ordem pessoal, terminaram por deixar o semestre um pouco complicado. Problemas com atrasos de pagamento da minha bolsa do projeto de extensão influenciando no acesso à universidade e no acesso aos materiais de leitura, e principalmente, a dificuldade no acesso ao campus no horário das 7h. Quanto aos problemas do semestre, faço uma crítica ao número exagerado de práticas propostas. Como falei, não é um problema só da disciplina especificamente, pois dentre as seis disciplinas obrigatórias do semestre, todas as seis tiveram atividades práticas, o que termina por limitar bastante o tempo de dedicação para cada atividade. Sinto que algumas práticas poderiam ter maior dedicação de minha parte, embora eu tivesse tentado, se houvessem menos atividades. As práticas desta disciplina tiveram também um pequeno problema, principalmente a cerca da quantidade destas e de exercícios bastante repetitivos. Quanto às aulas teóricas, nada a reclamar. Cheguei tarde em muitos momentos, mas a professora foi bastante compreensiva neste aspecto. Bem, vamos à nota. Frente a todas as dificuldades, sejam pessoais, sejam institucionais, dou-me a nota 9,0. Acho que mereço a nota, pois me dediquei ao máximo em todas as atividades propostas, procurei aprender e até mesmo especializar minhas leituras a cerca de determinadas  temáticas que me interessaram e encarei a disciplina com seriedade, mesmo com todos os problemas ligados aos atrasos. Acho que 9,0 é bem empregado.

Considerações Finais

         Bem, como esse tópico praticamente virou meu sobrenome nesse semestre (não é, minha equipe?), rs, decidi criar um aqui também em meu portfólio. Este escrito buscou mostrar momentos que foram tristes e ou tensos em algum momento de minha infância, mas que hoje provocam risos pra quem lê, e principalmente pra este que vos fala, que vivenciou. Espero que tenham gostado. Abaixo, uma pequena homenagem à todos da minha turma favorita, sem exceção, e à professora Juliana, que foi bastante "brother" durante todo o semestre, hehe. Inté \o 

Obs*: Tirinhas dos memes de minha autoria, professora. Pra reforçar o lance da criatividade, rs.