Bem, o primeiro de meus quatro marcos, e como falei no tópico de apresentação, um dos que mais tenho lembrança, mesmo tendo sido bem novinho. O título do marco faz alusão ao filme do Macauly Culkin com justiça, observem bem. Tinha eu cinco anos, e estava com meu pai, em um bar no bairro da Liberdade, onde eu morava. Lembro-me bem, do meu velho ter comprado um refrigerante para mim, e de estarmos dividindo um tira-gosto que ele havia comprado antes (dividindo nada, eu comia era tudo, pois meu pai só queria saber das cervejas, azar o dele). Passamos quase a tarde toda naquele bar, eu entupido de refrigerante, e meu pai mais grogue do que barata depois do inseticida. Até que, decidimos finalmente sair do bar e meu velho havia me perguntado se eu queria algo naquele momento, alguma coisa pra brincar. Pedi um dominó a ele. Abro um comentário rápido nesse momento, para falar que mais à frente na minha adolescência eu passei a aproveitar esses momentos de bebedeira do meu pai, onde ele ficava super susceptível a qualquer pedido meu, hehe. Pegamos então um taxi e fomos para o bairro do IAPI, relativamente próximo de onde estávamos. Após chegarmos ao destino, meu pai desceu do carro e foi em direção a um mercado do outro lado da rua, no intuito de trocar o dinheiro que havia na mão para pagar a corrida ao taxista. Esperamos ele voltar, para que eu pudesse descer e seguirmos para comprar o dominó. E esperamos, esperamos, esperamos... O taxista olhava o relógio e tinha mais de meia hora já decorrida, sem meu pai voltar, até que o mesmo volta-se até mim e pergunta:
- Você mora por aqui mesmo? Sabe o caminho de casa?
- Sei sim. Disse eu, ainda esperando meu pai, mas sem desesperar. Posso dizer que, se essa situação tivesse ocorrido alguns anos antes, minha reação poderia ser bastante diferente. Cole & Cole (2004, cap 10) falam que a criança na primeira infância, dos dois aos seis anos, utiliza de estratégias para controlar suas emoções. Neste meu caso, o que me veio à mente foi que meu pai me achava grandinho o suficiente pra voltar pra casa sozinho, pois ele não queria ir pra casa agora. Não me assustei com a situação de ter meu pai longe há muito tempo, nem por conversar com um estranho, no caso, o taxista. Ele guiava o carro seguindo minhas orientações, onde eu tentava orientar sua direção para ir direto à minha casa. “Vira aqui, segue direto, vira de novo, pára aqui na frente da casa de portão preto”, foram as orientações que dei ao motorista. Cheguei em casa e tive um problema: não havia ninguém lá. O taxista, já impaciente, me perguntou o que faria comigo, e eu respondi categoricamente, na desenvoltura dos meus cinco (!!) anos de idade, rs. “Vou pra casa de minha avó, aqui do lado”. Cole & Cole (2004, cap 10) falam sobre a competência socioemocional, sendo esta a habilidade para se comportar em adequadamente em situações sociais que evoquem grandes emoções. Penso que naquela idade, e frente às circunstâncias do evento, eu tinha uma competência socioemocional bastante considerável, visto que em nenhum momento me desesperei – diferente do taxista mamão que não sabia o que fazer comigo. Só faltou eu dirigir no lugar dele. Neste momento de minha vida eu tinha já certo desenvolvimento de minha personalidade e de minha capacidade de socialização. Cole & Cole (2004) define socialização como o processo no qual as crianças adquirem os padrões, valores e conhecimento da sociedade, enquanto personalidade é definida pelo padrão singular de temperamento, emoções, interesses e habilidades intelectuais em que a criança se desenvolve. Não desesperei, nem no momento em que meu pai saiu do carro para trocar o dinheiro, nem quando o taxista decidiu me levar para casa sozinho.
Indo para casa de meus avós, o taxista explicou toda a situação, e ficaram surpresos pelo fato de eu não ter chorado em momento ruins. Minutos de depois, quem aparece? Meu pai, quase afogando nas próprias lágrimas, gritando pra minha avó que havia me perdido, sem saber ele que eu havia conseguido voltar pra casa sozinho. Acho que serviu bem de lição pro velho “bebum”, que certamente passou a pensar duas vezes antes de me deixar sozinho e desamparado na escola! Até hoje meus pais também lembram com bastante lucidez sobre esse momento, falando que desde pequeno eu “não era mole”. E não era mesmo. Ao final do episódio, com meu pai ainda chorando, fiz uma pergunta bastante pertinente àquela altura: “Cadê meu dominó?” Hehehehe.

Nenhum comentário:
Postar um comentário