Esse marco me intriga até hoje, digno de qualquer filme de espionagem de elite. “Inimigo Oculto” é um filme de espionagem, e que sua proposta encaixa diretamente no que foi essa minha vivência, ocorrida na minha segunda infância, mais precisamente aos onze anos de idade. Meus pais me deram uma educação que não foi nada autoritária, mas também nada negligente, sendo mais coerente afirmar que meu desenvolvimento foi voltado a um estilo parental com padrão de maternidade e paternidade com autoridade, que segundo Cole & Cole (2004, cap 11), consiste num estilo parental onde os pais demonstram que têm mais conhecimentos e habilidades, detêm controle de mais recursos e inclusive tenham mais força física que seus filhos, mas admitem que as crianças também tenham seus direitos. São pais que tem menor probabilidade de utilizar de punição, em relação aos pais autoritários, que buscam controlar seus filhos explicando as regras e enfatizando a obediência de forma a mostrá-la como uma virtude. Em suma, minha criação foi, na medida do possível, equilibrada no sentido de ter uma educação moral sem exageros punitivos. Havia regras e seu descumprimento, a depender da gravidade, tinha como conseqüência desde um rápido diálogo até a velha palmatória. Conto agora o caso. Estava eu na 5ª série do primário, na época chamada de ginásio. Este período representava algo novo em minha vida, pois começava a vivenciar de forma mais intensa a influencia do grupo de pares e as sensações das paixões (platônicas, principalmente) pelas meninas mais bonitas da turma. Meus amigos de sala volta e meia após as aulas do dia me chamavam para ir ao fliperama que ficava localizado no mesmo bairro onde ficava a escola, mas eu categoricamente recusava a oferta, dando desculpas ligadas a atividades da escola ou de casa, e etc. Mas a insistência foi ficando intensa, além do fato de eu ser um apaixonado por games, e essas duas coisas juntas “não deram o que preste”, rs. Cedi a pressão dos caras e fui finalmente no fliperama com eles, após a aula. Era realmente muito bom fazê-lo, passávamos horas após a escola jogando e conversando, lá mesmo no fliper. Era uma vivência que eu não tinha em casa, nem no bairro onde morava. Piaget (1932/1965 apud Cole & Cole 2004) chamou esse tipo de vivência de moralidade autônoma, falando que quando as crianças entram na segunda infância começam cada vez mais a interagir com seus pares fora de situações diretamente controladas pelos adultos. Porém, contudo, todavia, entretanto, alegria de pobre dura pouco... Em um desses dias super comuns, e que por incrível que pareça eu não tinha ido ao fliperama, recebo uma ligação do meu pai, quando chego à casa de meus avós:
- Tô sabendo que você tá indo pro videogame depois da aula. Já me passaram a informação, você tava sendo vigiado. Quando eu chegar, vai cair na porrada!
- Mas pai, espera! Eu não estava em jogo nenhum, quem te disse isso? Perguntei.
- Não interessa quem me disse você não precisa saber. Só saiba que o couro vai comer quando eu chegar. E desligou o telefone.
Bem, não preciso dizer que minha cara naquele momento estava mais pálida que a do gasparzinho com anemia. Tentei utilizar uma de minhas estratégias anti-bronca, que era dormir antes de meus pais chegarem pra escapar do momento de raiva, mas não adiantou dessa vez. Fui “acordado”, e tome sermão, com direito a ameaça com cinto na mão. Ouvi, ouvi, até que chegou um momento em que questionei, falando que eles prestavam mais atenção no vizinho peru do que no meu desempenho escolar, que não havia sido em nada alterado com a minha nova atividade. Claro, compreendo que não seria nada saudável transformar essas idas ao fliperama em uma rotina, mas não era nada nessa ordem. Esse momento de questionamento das regras estabelecidas por meus pais também é contemplado pela teoria da moralidade autônoma de Piaget, que descreve a aquisição de uma nova forma de pensamento moral que passa a compreender determinadas regras como arbitrárias e que podem ser desafiadas e até mudadas.
No final das contas, meu pai não me bateu, mas a ameaça “doeu” pela ansiedade de todo o dia de espera pela sua chegada. E até hoje, ATÉ HOJE, NÃO SEI QUEM FOI O VIZINHO PERU QUE ME DENUNCIOU! Perguntei a meu pai a alguns poucos anos atrás, mas ele afirmou não se recordar. Preferi acreditar, pra não correr risco de criar algum tipo de “antipatia retardada” pela pessoa, rs. Mas que foi coisa de espião, com certeza foi!


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