Neste último marco, trago a vivência do bullying sofrido também no mesmo ano da espionagem do fliperama. O marco tem esse nome como título, pois assim como no filme, onde o protagonista é perseguido por um monte de caras querendo arrebentá-lo, mais ou menos aconteceu comigo também. Sei que chego nesse último marco só falando teoricamente de coisas ruins que aconteceram comigo, mas como já falei, fiquem tranqüilos. Muita coisa de boa já me aconteceu também, e nisto estão incluídos os aprendizados obtidos nessas vivências expostas até aqui.
Pois bem, falemos deste último. Minha nova escola na 5ª série trouxe um monte de mudanças vindas da vivência dos grupos de pares. Contudo, esta escola sofria influência de outros fatores, e um deles era relacionada à presença de muitos garotos dos bairros vizinhos em suas imediações, e alguns desses caras tinham disposição muito grande pra arranjar problema. Eu não tinha muita prática em lidar com pessoas com esse tipo de personalidade. Como anteriormente só havia estudado em colégios particulares, a 5ª série no colégio público trouxe uma série de mudanças e readaptações, e uma delas foi a de defasagem dos conteúdos da escola. Tudo era muito mais fácil do que na escola anterior, o que refletia então nas minhas notas. As notas altas somadas a minha timidez fez com que pensassem de mim como alguém que buscasse superioridade em sala, o que era um tremendo equívoco. Os dias foram passando, fui fazendo amigos, mas a mesma galera da sala, que me olhava de forma diferente no início do ano, continuava se comportando diferente dos demais comigo, até que um dia eles me abordaram, me pedindo dinheiro (R$0,10 era dinheiro na época), me pedindo, ridicularizando frente aos meus amigos, até que houve um dia em que eu não suportei tal pressão, xinguei os caras de nomes que até o Cão se espantaria, joguei pedras, tudo pra além de não dar o dinheiro, intimidá-los. Contudo, foi inútil. Corri por todo o bairro, entrei em loja, saí em loja, mercado, padaria... Até que finalmente me vi livre dos caras e relaxei, coisa de cinco minutos. Estava a esperar meu ônibus, torcendo para ele passar logo, e passou. Mas... como sorte de mulambo dura pouco, assim que saí da loja pra pegar o ônibus, fui cercado pelos caras!
- Olha ele aqui, achei ele. Xinga agora, otário! Pega o dinheiro dele, véio!
- Não, caras. Eu não tenho dinheiro (tinha sim). Mal aê pelos xingamentos.
Não houve desculpa que coubesse naquela hora. Fui perseguido por mais de 1h por todo o bairro, me escondi dentro de uma loja de utilidades, mas foi descoberto pelos caras e além de perder meu dinheiro, apanhei feito “mala velha”. Tinha desabafado anteriormente, mas em seguida estava pagando o preço da minha revolta. Hartup (1974 apud Cole & Cole 2004) fala sobre a existência de duas formas de agressão, sendo uma voltada a uma agressão estrutural, que é dirigida à obtenção de algo, como ameaçar e ferir no intuito de tomar algo de alguém, e a agressão hostil, chamada normalmente de bullying, que visa uma dominação moral da pessoa que sofre, com o objetivo de obter vantagens prolongadas com essa dominação. Sofri um pouco das duas, pois levaram meu dinheiro, mas principalmente houve a tentativa de estabelecer uma dominação permanente, que só teve fim com a presença de pais na escola e da polícia nos seus arredores. Apanhei muito naquele dia, mas ganhei o respeito de meus amigos, que também eram amedrontados pelos caras frequentemente. Acho que foram episódios como esses que contribuíram para que eu desenvolvesse mais empatia pelos outros. Importar-me com a causa do outro, além da minha. Segundo Hoffman(1975 apud Cole & Cole 2004), uma criança pode sentir empatia por outra em qualquer idade, no entanto, à medida que desenvolvem-se, sua capacidade de empatia aumenta e ela se tornam capazes de interpretar e reagir mais adequadamente às emoções dos outros.

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